Grupos Focais
Estão constituídos quatro grupos focais sobre temas estratégicos para a aceleração da implantação de energias renováveis:
- Agrovoltaicos
- Soluções urbanas
- Licenciamento ágil e previsível
- Sistema elétrico nacional
Grupo Focal AGROVOLTAICOS
Coordenação: Professores Jorge Cancela e Francisco Moreira
Objetivos e âmbito: o interesse, os benefícios e os eventuais constrangimentos das soluções agrovoltaicas no cumprimento do PNEC e em particular nas Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis.
Especialistas: Margarida Pinto Correia (EDP), Ricardo Paulino (EDP), Susana Serôdio (APREN), José Silva (UE), Domingos Leitão (Strix), Carlos Lopes (ISA), Marta Lopes (ESAC)
Reuniões realizadas: 1
Principais pontos discutidos:
Foram apresentadas as 3 questões que orientaram esta primeira reunião, dando-se a liberdade aos intervenientes de comentarem qualquer delas:
- Qual a importância e o potencial do agrovoltaico?
- Quais as limitações técnicas, administrativas ou políticas?
- Em que tipo de áreas agrícolas existentes e que tipo de agricultura a desenvolver.
Notas da reunião:
- Definição e Enquadramento dos Sistemas AgroVoltaicos:
Foi debatido o conceito de agrovoltaico, as diferenças face a outros modelos (eco-voltaico), a ausência de definição legal clara em Portugal e a necessidade de clarificação para efeitos de políticas públicas e licenciamento.
- Definição do Conceito: Foi debatida a ausência de uma definição legal e técnica clara para agrovoltaico em Portugal, sendo referidas diferentes abordagens internacionais: nos EUA, qualquer integração de fotovoltaico em contexto agrícola é considerada agrovoltaico, enquanto na Europa exige-se adaptação da instalação fotovoltaica à atividade agrícola, como aumento de altura dos painéis ou espaçamento entre linhas para permitir mecanização e produção agrícola.
- Diferenças entre Modelos: Os participantes distinguiram entre agrovoltaico (foco na compatibilização entre produção agrícola e energia) e eco-voltaico (abordagem mais abrangente, incluindo benefícios ambientais e sociais), sendo sugerido que o conceito eco-voltaico pode englobar o agrovoltaico e outros usos híbridos do solo.
- Necessidade de Definição Legal: Foi consensual a necessidade de uma definição legal clara para evitar apropriação indevida do conceito e garantir que políticas de apoio e licenciamento sejam direcionadas para projetos que efetivamente conciliem agricultura e produção de energia, evitando que projetos puramente fotovoltaicos sejam classificados como agrovoltaicos sem adaptação à atividade agrícola.
- Exemplos Internacionais: Foram referidas experiências em França, Itália, Alemanha, EUA, Brasil e China, destacando diferentes percentagens de ocupação do solo, tipos de integração e objetivos (produção, biodiversidade, resiliência), ilustrando a diversidade de abordagens e a necessidade de Portugal definir o seu próprio enquadramento.
- Potencial, Benefícios e Limitações dos Sistemas AgroVoltaicos:
Os especialistas analisaram o potencial dos sistemas agrovoltaicos para a produção de energia e agricultura, os benefícios ambientais e sociais, e as limitações técnicas, económicas e legais para a sua implementação em Portugal.
- Benefícios Agrícolas e Ambientais: Foi destacado o potencial dos sistemas agrovoltaicos para proteger culturas agrícolas (como vinha e olival) contra eventos climáticos extremos, reduzir o consumo de água devido ao sombreamento dos painéis, promover a biodiversidade e contribuir para a resiliência das comunidades rurais, especialmente em territórios agrícolas de menor valor. Mas ainda há pouca informação sobre o potencial impacto na produtividade do olival. Foi contrastada a diferença entre o potencial do agrovoltaico como agregador de comunidades, contrariamente ao solar puro. Foi igualmente mencionada a sua potencial importância na proteção do vento a na redução do risco de incêndio. Na componente biodiversidade foi mencionado que o potencial benefício dependerá muito do contexto, com preferência para a instalação em sistemas agrícolas mais intensivos com menor potencial de biodiversidade.
- Limitações Técnicas e Operacionais: Foram identificadas limitações técnicas, como a necessidade de adaptar a altura e espaçamento dos painéis para permitir mecanização, desafios na compactação e qualidade do solo, e dificuldades de compatibilização com culturas superintensivas (ex: olival e vinha), onde as máquinas de colheita são de grandes dimensões e exigem adaptações tecnológicas ainda inexistentes em Portugal. Mas foi igualmente mencionado o potencial das estufas para terem este tipo de sistema. Foram apontadas dificuldades de interoperabilidade tecnológica, falta de soluções adaptadas ao contexto agrícola, carências de infraestruturas elétricas e de comunicações em meio rural, e necessidade de maior literacia cruzada entre especialistas dos setores agrícola e energético.
- Modelos de Negócio e Complexidade: A adoção de sistemas agrovoltaicos implica novos modelos de negócio, que podem envolver o agricultor como proprietário, arrendatário ou em regime de copropriedade, aumentando a complexidade da gestão e exigindo parcerias entre os setores agrícola e energético.
- Limitações Legais e de Licenciamento: Foi referido que o quadro legal e regulatório português está desatualizado para o contexto agrovoltaico, com obstáculos burocráticos ao licenciamento, restrições à venda de excedentes à rede e limitações específicas para instalação em áreas da Reserva Agrícola Nacional (RAN), REN, e outros solos protegidos. Os principais desafios ao licenciamento e implementação dos sistemas agrovoltaicos incluem questões técnicas, operacionais, económicas, comportamentais e legais, e foram sugeridos possíveis caminhos para simplificação e aceleração do processo. O licenciamento de projetos de autoconsumo enfrenta entraves burocráticos, com o setor agrícola frequentemente impedido de vender excedentes à rede devido a incentivos recebidos, e um quadro legal desatualizado que não contempla as especificidades dos sistemas agrovoltaicos.
- Viabilidade Económica: Discutiu-se que os custos de instalação dos sistemas agrovoltaicos são superiores aos dos parques fotovoltaicos convencionais devido à menor densidade de painéis e necessidade de estruturas elevadas, mas que podem ser compensados por benefícios adicionais e, em alguns casos, por melhores business plans devido à produção de energia em horários de maior valor. A complexidade dos modelos de negócio, a necessidade de clarificação de incentivos e a adaptação das políticas de apoio foram identificadas como fatores críticos para a penetração da tecnologia, sendo sugerida a simplificação do licenciamento para o setor agrícola em vez de uma abordagem baseada apenas em concentração espacial.
- Critérios para Identificação de Zonas de Aceleração e Compatibilização com
Sistemas AgroVoltaicos:
Foram debatidos os critérios para seleção de zonas de aceleração para energias renováveis, a compatibilização com diferentes sistemas agrícolas (incluindo RAN, olivais, vinhas e pomares) e as implicações legais e ambientais dessas escolhas. Foi questionado se deveria haver uma ZAER para agrovoltaicos.
- Critérios de Seleção de Zonas: Alguns participantes acham que as zonas de aceleração devem privilegiar solos agrícolas de menor valor e evitar solos férteis e produtivos, tendo em conta a proteção do solo e da paisagem, bem como a legislação que limita a ocupação de áreas RAN e REN a 10% da área total contratada ou 1 hectare. Em contraste, outros receiam o impacto sobre a biodiversidade, porque são estas áreas como menor valor agrícola que possuem muitas vezes maior potencial para biodiversidade.
- Compatibilização com Sistemas Agrícolas: Os participantes debateram a viabilidade de implementar agrovoltaicos em diferentes sistemas agrícolas, concluindo que pastagens e culturas extensivas são mais facilmente compatibilizáveis, enquanto olivais e vinhas superintensivos apresentam maiores desafios técnicos e económicos, sendo prioritário aprofundar a investigação nestes casos.
- Implicações Legais: Foi esclarecido que a legislação atual impõe restrições à instalação de sistemas agrovoltaicos em áreas protegidas. De qualquer foram, estas estariam excluídas das ZAER.
- Impactos Ambientais e Sociais: Salientou-se a importância de considerar os impactos ambientais, nomeadamente a compactação e degradação do solo, e os impactos sociais, como a aceitação pelas comunidades locais, defendendo que a abordagem deve ser descentralizada e adaptada ao contexto territorial.
- Propostas de Melhoria: Foi sugerida a criação de standards e boas práticas ambientais para parques fotovoltaicos em solo rústico, a clarificação do conceito de agrovoltaico para efeitos de licenciamento e incentivos, e a promoção de parcerias entre agricultores e promotores energéticos para garantir benefícios mútuos e aceitação social.
- Próximos Passos e Organização do Processo:
O grupo foi informado sobre o calendário do processo, a continuação dos grupos focais e a necessidade de recolher contributos adicionais para fundamentar decisões sobre a integração ou não dos sistemas agrovoltaicos nas zonas de aceleração.
- Calendário e Continuidade: O processo de discussão e recolha de contributos irá decorrer até março ou abril do próximo ano, estando prevista a realização de mais uma ou duas reuniões para aprofundar os temas abordados e consolidar recomendações.
- Recolha de Contributos: Os participantes foram convidados a enviar materiais, apresentações ou artigos relevantes por e-mail, bem como a partilhar questões ou contra-evidências que considerem importantes para o processo de decisão.
- Temas Futuros: Foram identificados quatro temas prioritários para discussão futura: licenciamento, ativação dos sistemas agrovoltaicos, integração no sistema energético nacional e outros trabalhos relacionados com a aceleração das energias renováveis.
Tarefas de seguimento:
- Definição Legal de AGRO Voltaico: Propor uma definição clara e oficial do conceito de AGRO voltaico para evitar apropriações indevidas e garantir coerência nas políticas de apoio e licenciamento.
- Compatibilização de Modelos de Negócio AGRO Voltaico: Analisar e apresentar exemplos de modelos de negócio viáveis para AGRO voltaico, incluindo parcerias entre setor agrícola e energético, e identificar barreiras à sua implementação em Portugal.
- Licenciamento de Projetos AGRO Voltaico: Identificar e detalhar os principais obstáculos legais e burocráticos ao licenciamento de projetos AGRO voltaico, sugerindo possíveis alterações para simplificação do processo.
- Impacto do AGRO Voltaico em Sistemas Agrícolas Específicos: Investigar e compilar evidências sobre a viabilidade técnica e impactos do AGRO voltaico em olivais superintensivos e vinhas, incluindo limitações de mecanização e efeitos no rendimento agrícola.
- Proteção do Solo Agrícola: Recolher e partilhar exemplos de regras e boas práticas internacionais para minimizar o impacto da instalação de AGRO voltaico sobre a qualidade do solo agrícola.
- Inclusão de Áreas Específicas nas Zonas de Aceleração: Avaliar e emitir recomendação sobre a inclusão ou exclusão de vinhas, olivais, pomares e áreas da RAN nas zonas de aceleração para AGRO voltaico, considerando limitações legais e técnicas.
- Partilha de Informação Adicional sobre Conceito ECO Voltaico: Enviar informação adicional e referências sobre o conceito de ECO voltaico e a sua relação com AGRO voltaico para esclarecimento do grupo.
Grupo Focal SOLUÇÕES URBANAS
Coordenação: Dr. Sérgio Barroso e Professor Pedro Carvalho
Objetivos e âmbito: como acelerar a produção de energias renováveis em áreas urbanas e que critérios devem orientar o desenvolvimento dessas soluções, maximizando benefícios económicos, ambientais e sociais, e mitigando impactos?
Especialistas: Ana Rita Antunes, Rui Bento, Manuel Miranda, Miguel Sequeira
Reuniões realizadas: 1
Principais pontos discutidos:
- Potencial Técnico do Fotovoltaico Urbano e Limitações do Edificado
- Potencial de fotovoltaico em coberturas urbanas
Conclusão:
Os estudos existentes apontam para um potencial técnico elevado em coberturas, incluindo um valor de referência de 28 GW no estudo do LNEG. No entanto, a exequibilidade prática a curto/médio prazo é duvidosa devido:
- Qualidade estrutural deficiente de muitos telhados e necessidade de obras prévias;
- Sombreamentos (chaminés, antenas, volumes técnicos);
- Ausência de dados detalhados sobre o estado do edificado.
Ainda assim, reconhece‑se que o potencial teórico existe e que a reabilitação do edificado em mau estado é desejável e pode criar oportunidade para integração de renováveis, embora implique "dois investimentos".
Pontos de Discussão:
- O estudo do LNEG indica 28 GW de potencial em coberturas; há dúvidas quanto à sua concretização.
- Informação da maior associação de proprietários de Lisboa: cerca de metade dos telhados não é aproveitável no estado atual, necessitando de obras prévias.
- O estudo nacional não avaliou o efeito de chaminés/volumes técnicos nem a condição estrutural cobertura a cobertura; usou percentagens de aproveitamento conservadoras, baseadas em trabalhos detalhados apenas para Lisboa (Lisboa ENova).
- Não existem dados suficientemente granulares sobre a qualidade do edificado.
- Argumenta‑se que telhados em mau estado devem ser reabilitados de qualquer forma, podendo a instalação de solar fotovoltaico ser integrada, ainda que com custos acrescidos.
- Potencial de fotovoltaico em coberturas urbanas
- Autoconsumo Urbano, Modelos Económicos e Viabilidade Financeira
- Autoconsumo fotovoltaico urbano: potencial, estrangulamentos e modelos
Conclusão:
O autoconsumo fotovoltaico em meio urbano apresenta potencial técnico relevante e forte motivação económica do lado dos consumidores (poupança na fatura), mas enfrenta vários estrangulamentos:
- Redução da atratividade económica face a contratos dinâmicos e aos preços de mercado em horas solares;
- Estrutura tarifária (períodos, horários, tarifas de acesso) que desincentiva o investimento;
- Complexidade regulatória e tecnológica do autoconsumo coletivo;
- Falta de modelos económicos adicionais (comunidades de energia, feed‑in tariffs) que valorizem excedentes e viabilizem projetos.
Pontos de Discussão:
- Motivação económica principal é a poupança; o setor residencial/social tem pouco capital e menor capacidade para "fazer contas".
- O autoconsumo individual torna‑se menos atrativo face a contratos dinâmicos; a revisão tarifária em curso pode reduzir ainda mais a viabilidade da Unidade de Produção para Autoconsumo (UPAC) urbano.
- Necessidade de novos modelos para além do autoconsumo individual: Comunidades de energia, autoconsumo coletivo, VNM, feed‑in tariffs urbanos.
- Exemplos: feed‑in tariffs para pequena produção (Holanda) ou para energia partilhada em comunidade (Itália).
- O excedente do autoconsumo coletivo não é devidamente valorizado; o regime é complexo e comparativamente menos simples que em Itália e Espanha.
- Há estrangulamentos tecnológicos e de desenho (proximidade, papel do gestor de energia, etc.) que dificultam implementação.
- O potencial descentralizado é elevado e o crescimento centralizado vs. descentralizado tem sido comparável; apoios do Fundo Ambiental deram um forte impulso recente.
- As metas do PNEC 2030 favorecem o centralizado face ao descentralizado, apesar de ser duvidoso que o centralizado atinja os valores previstos até 2030.
- A queda de preços de mercado afeta mais o centralizado em mercado do que o autoconsumo residencial, cujo referencial é o valor da fatura.
- Modelos de autoconsumo urbano: individual, coletivo e comunidades
Conclusão:
O autoconsumo coletivo e as comunidades de energia são essenciais para maximizar o aproveitamento das coberturas urbanas, dado que o autoconsumo individual é frequentemente pouco rentável em edifícios com baixa taxa de consumo diurno. Contudo, barreiras regulatórias (nomeadamente tarifárias) reduzem a atratividade económica destes modelos.
Pontos de Discussão:
- Em muitos equipamentos (pavilhões, edifícios públicos) a entidade proprietária consome apenas uma pequena fração da produção; modelos coletivos permitem rentabilizar a cobertura.
- Condomínios urbanos têm telhados limitados para o conjunto dos condóminos; o modelo coletivo é essencial.
- Questiona‑se o destino e a remuneração dos excedentes, bem como a viabilidade de modelos de "renda de telhado" por empresas investidoras.
- Em Portugal, paga‑se tarifa de acesso à rede na partilha local, ao contrário de Itália e Espanha, constituindo um forte desincentivo e uma fonte de incerteza anual.
- Experiências municipais (ex.: Sintra) estudam a produção fora de áreas históricas para abastecer consumidores dentro, dependente do regime de partilha.
- Valor, benefícios e aceitação social das comunidades de energia
Conclusão:
As comunidades de energia podem oferecer benefícios significativos de aceitação social, otimização do uso da energia, descarbonização e criação de valor coletivo, sendo potencialmente mais valiosas do que a soma dos autoconsumos individuais, se existir enquadramento técnico, regulatório e financeiro adequado.
Pontos de Discussão:
- O incentivo concreto para criar comunidades, face à simplicidade do autoconsumo individual, precisa de ser clarificado.
- Comunidades permitem melhor aproveitamento da produção local, ao partilhar energia entre OS vários perfis de consumo.
- Há modelos que vão além da produção, incorporando mobilidade elétrica partilhada (automóveis e pontos de carregamento partilhados).
- O interesse social existe e é maior do que o esperado (número de candidaturas a projetos europeus excede expectativas).
- Experiências internacionais (Holanda, Bélgica) mostram crescimento rápido do número de comunidades e critérios de seleção que valorizam benefícios sociais e ambientais.
- Autoconsumo fotovoltaico urbano: potencial, estrangulamentos e modelos
- Matriz Energética, Rede, Fontes Renováveis e Segurança do Sistema
- Papel das diferentes fontes renováveis e impactos sistémicos
Conclusão:
A atual abordagem está excessivamente centrada no fotovoltaico, em particular no centralizado. O solar fotovoltaico tem contributo limitado no inverno e pode ocupar a capacidade de rede necessária a fontes com maior fator de utilização (eólico, hídrico, biomassa). É necessário diversificar a matriz, apostar em hibridização (eólico+solar fotovoltaico, hídrico+solar fotovoltaico), explorar solar térmico e outras tecnologias, e aproveitar melhor o solar fotovoltaico em combinação com infraestruturas existentes, ajustando consumos aos períodos de maior produção solar.
Pontos de Discussão:
- Existem já níveis de potência de solar fotovoltaico comparáveis à ponta do sistema; continuar a crescer pode reduzir espaço de rede para fontes relevantes no inverno.
- Eólico apresenta fatores de utilização mais elevados e produz mais no inverno, sendo crucial para segurança de abastecimento.
- Hibridizar parques eólicos e centrais hídricas com solar fotovoltaico é uma estratégia virtuosa, aproveitando as infraestruturas existentes e melhorando rendimento da rede.
- solar fotovoltaico urbano é virtuoso para envolver agentes e sincronizar consumos, mas o seu contributo para a descarbonização global é limitado em termos absolutos.
- A rede, até certa escala (cerca de 1 kVA), não é o principal entrave ao autoconsumo, mas surgem limites com projetos maiores e novas grandes cargas (eletrolisadores).
- Pedidos de ligação de eletrolisadores (ordem de grandeza 3x a ponta atual) podem alterar profundamente o sistema, exigindo abordagem específica.
- Metas PNEC, projetos centralizados (8 GW) e papel do descentralizado
Conclusão:
É plausível que seja mais fácil cumprir as metas do PNEC 2030 na componente descentralizada (autoconsumo e comunidades de energia) do que através da concretização integral do pipeline de grandes projetos centralizados (~8 GW com TRC/acordos de ligação), desde que existam instrumentos financeiros adequados e remoção de entraves administrativos.
Pontos de Discussão:
- Existem cerca de 8 GW com TRC ou acordos de ligação; é questionado se não será mais simples atingir metas via descentralizado.
- Apoios do Fundo Ambiental demonstraram capacidade de gerar 1–2 GW adicionais em poucos anos no segmento descentralizado.
- O autoconsumo doméstico tem limites de poupança (baixa presença em casa durante o dia), mas é relevante para a transição e para deslocar consumos.
- O solar fotovoltaico descentralizado é mais caro (CAPEX) do que o centralizado, implicando políticas de apoio específicas se se quiser privilegiar esta via.
- Papel das diferentes fontes renováveis e impactos sistémicos
- Desenho Tarifário, Regulação Económica e Sinais de Mercado
- Desenho tarifário, tarifas de acesso e incentivos
Conclusão:
A estrutura tarifária atual, baseada em custos sobretudo fixos cobrados via componente variável (kWh), distorce incentivos:
- Reduz o incentivo ao autoconsumo e à produção urbana;
- Dificulta deslocar consumos para períodos de elevada produção solar;
- Não reflete a natureza dos custos do sistema;
- Há movimento regulatório para aumentar componentes fixas e rever períodos horários, mas há risco de estas alterações irem contra objetivos de promoção do solar fotovoltaico urbano e da eficiência se não forem bem calibradas.
Pontos de Discussão:
- O sistema tem custos principalmente fixos (infraestruturas e centrais) e custos variáveis hoje marginais, mas cobra‑se maioritariamente por kWh.
- Propõe‑se reequilibrar as componentes fixas e variáveis, aumentando o custo fixo indexado à potência contratada e reduzindo o custo variável, sem eliminar incentivo à eficiência.
- A ERSE já caminha para aumentar a componente fixa da potência e rever tarifas de acesso, mas a sua margem abrange apenas essa componente.
- A revisão dos períodos horários (retirar ponta de manhã, concentrar à noite) pode prejudicar o incentivo a FV urbano e à deslocação de consumos para o dia.
- As tarifas deveriam favorecer o consumo diurno no verão (vazio diurno) para aproveitar excedentes solares; hoje ainda incentivam consumo noturno.
- A adoção de tarifas indexadas é baixa entre potenciais autoconsumidores urbanos, limitando o efeito dos sinais de preço horário.
- Muitos consumidores pagam tarifas elevadas por inércia, mantendo viável o autoconsumo, apesar de preços de mercado baixos em certas horas.
- Regime tarifário e enquadramento do autoconsumo coletivo
Conclusão:
O regime tarifário e regulatório português para autoconsumo coletivo e comunidades de energia é menos favorável e mais complexo do que em Espanha e Itália, estrangulando o desenvolvimento de comunidades de energia e dificulta a viabilidade económica de projetos.
Pontos de Discussão:
- A tarifa de acesso às redes é considerada elevada, mesmo com isenções parciais temporárias, dificultando a partilha económica em condomínios.
- O licenciamento de autoconsumo individual até 30 kW (a ser alargado a 100 kW) é muito simplificado, mas não existe um regime equivalente para o autoconsumo coletivo.
- Em Portugal, exige‑se que o licenciamento seja feito já com Códigos do Ponto de Entrega (CPE) de consumo, casados, ao contrário de Itália e Espanha, onde é possível licenciar antes de identificar todos os consumidores.
- Dados públicos sobre Autoconsumo Coletivo e comunidades de energia são escassos e pouco transparentes; há cerca de 640 Autoconsumo Coletivo e apenas 3 CER registadas.
- Condicionantes de rede e critérios de proximidade (2 km por PT) limitam o desenho e crescimento das comunidades.
- Desenho tarifário, tarifas de acesso e incentivos
- Incentivos Financeiros e Fiscais
- Incentivos financeiros e fiscais
Conclusão:
Instrumentos financeiros (fundos de apoio) e incentivos fiscais (IVA, IRS, eventualmente IRC) são vistos como fundamentais para expandir o autoconsumo e as comunidades de energia, sobretudo no segmento urbano. Sem novos apoios, o ritmo de crescimento recente dificilmente se manterá, em especial nos domésticos e em parte da indústria.
Pontos de Discussão:
- Apoios do Fundo Ambiental foram o principal impulso para o crescimento descentralizado; "mais um ou dois fundos" semelhantes poderiam bastar para metas PNEC 2030.
- Redução do IVA (ex. de 23% para 6%) e benefícios em IRS tornariam o investimento mais atrativo para famílias e proprietários.
- Sem estes incentivos, muitos proprietários não avançam, apesar de reconhecerem o potencial.
- Nos domésticos, o crescimento tem sido muito associado à existência de fundos; na indústria, muitos casos mais rentáveis já investiram.
- Incentivos financeiros e fiscais
- Benefícios Urbanos, Equidade, Aceitação Social e Risco de Centralização
- Benefícios urbanos, equidade e riscos de "centralização camuflada"
Conclusão:
Há preocupação em assegurar que a expansão de renováveis, incluindo soluções descentralizadas, gere benefícios efetivos para residentes e utentes urbanos (económicos, sociais, de resiliência) e não apenas impactos visuais ou custos. Pretende‑se evitar repetir situações em que infraestruturas (como hídricas) trazem poucos benefícios locais.
Pontos de Discussão:
- A aceitação social depende de benefícios efetivos e duradouros para as populações, não apenas da produção renovável em abstrato.
- A produção localizada pode reforçar a resiliência energética urbana, mas devem evitar‑se modelos que se aproximem de "centralização camuflada".
- A questão dos excedentes é central: perdas não remuneradas configuram forte ineficiência económica.
- Defende‑se que as áreas urbanas produzam o máximo da sua própria energia, especialmente perante novas cargas (data centers, hidrogénio), contribuindo para cidades neutras em carbono.
- Benefícios urbanos, equidade e riscos de "centralização camuflada"
- Paisagem, Património, Normativos Urbanísticos e Licenciamento
- Impactos paisagísticos, património e regulação urbanística
Conclusão:
Os impactos paisagísticos e patrimoniais são relevantes, mas a intensidade atual de procura por soluções solares urbanas ainda não gera conflito estrutural com os constrangimentos urbanísticos. Defende‑se uma regulação graduada ("áreas do sim, do não e do talvez"), com critérios claros, evitando tanto o proibicionismo generalizado como a análise casuística pesada para todos os casos.
Pontos de Discussão:
- Distinção entre impacto no elemento individual e no conjunto urbano; necessidade de regulação graduada.
- A lógica de "áreas do sim, não e talvez" (Nuno Portas) é proposta como quadro conceptual.
- Questiona‑se se os mecanismos de salvaguarda existentes não serão já suficientes em algumas áreas históricas.
- É apontada assimetria entre proteção de património cultural urbano e de património natural em áreas rústicas (Natura 2000, parques naturais).
- Exemplos internacionais (Viena, Holanda) mostram integração de solar fotovoltaico em património histórico, sugerindo possibilidades também em Portugal, excetuando casos de edifícios emblemáticos.
- Reconhece‑se que a procura atual por soluções solares urbanas continua longe de saturar e criar constrangimentos urbanísticos.
- Normativos urbanísticos, licenciamento e "bitola única"
Conclusão:
Os normativos urbanísticos são em parte obsoletos, genéricos e baseados numa "bitola única" para alterações do aspeto exterior (incluindo painéis solares e bombas de calor). Isso gera entraves e decisões pouco racionais, mas os participantes defendem uma reforma criteriosa dos mecanismos de controlo, não a sua pura desregulação.
Pontos de Discussão:
- Casos concretos (ex.: retirada obrigatória de bombas de calor em Lisboa) ilustram conflito entre normativos atuais e objetivos de descarbonização.
- Há reconhecimento de normativos desatualizados e genéricos, que sujeitam qualquer alteração exterior a controlo municipal.
- Critica‑se a tendência política para "curto‑circuitar" processo em vez de reformar os mecanismos de controlo.
- Critérios de avaliação em património são considerados antiquados e vagos, remetendo para decretos antigos e subjetividade pouco enquadrada.
- Simplificação processual, novas construções e obrigações de renováveis
Conclusão:
Normas podem atuar como catalisadores ao impor integração de soluções renováveis em novas construções e reabilitações. Já existem algumas obrigações (principalmente via solar térmico), bem como figuras de "obras de escassa relevância", mas o quadro é incompleto e desigual, havendo espaço para clarificação.
Pontos de Discussão:
- Sugere‑se reforçar a obrigatoriedade de integração de soluções renováveis em nova construção.
- Já existem exigências de integração de renováveis (muitas vezes cumpridas com solar térmico).
- Algumas pequenas soluções (como pequenas turbinas em quintais) são já qualificadas como de escassa relevância urbanística, mas falta sistematização.
- Impactos paisagísticos, património e regulação urbanística
- Comunidades de Energia: Enquadramento Legal, Barreiras e Capacidade
Institucional
- Definições legais de comunidades de energia e desalinhamento com diretivas
europeias
Conclusão:
Há desalinhamento relevante entre a legislação nacional e as diretivas europeias sobre comunidades de energia:
- Quem pode ser comunidade;
- Quadro de atividades;
- Exigência de possuir uma UPAC própria;
- Isto restringe artificialmente o universo de entidades que poderiam ser reconhecidas como comunidades e limita a diversidade de modelos.
Pontos de Discussão:
- Distinção entre autoconsumo coletivo (sem entidade jurídica obrigatória) e comunidades de energia (entidade jurídica própria sem fins lucrativos).
- A transposição nacional exige que a comunidade tenha uma UPAC no seu nome, excluindo cooperativas e distribuidores cooperativos que não detêm instalações próprias.
- A legislação portuguesa reduz o âmbito das comunidades sobretudo à produção local, quando as diretivas permitem também mobilidade elétrica, reabilitação de edifícios e outros serviços.
- Muitas iniciativas apresentadas como "comunidade" são na prática autoconsumo coletivo empresarial, sem controlo cidadão.
- A alteração legislativa para corrigir estas distorções está pendente há cerca de um ano.
- Barreiras práticas, administrativas e sociais às comunidades de energia
Conclusão:
A expansão das comunidades de energia enfrenta fortes barreiras:
- Falta de conhecimento e capacidade técnica nas associações e autarquias;
- Regras restritivas em condomínios;
- Receio de problemas de contratação pública;
- Atrasos administrativos e operacionais;
- Limitações de rede e critérios de proximidade.
Pontos de Discussão:
- Associações e autarquias carecem de apoio técnico e informação sobre como estruturar projetos.
- A exigência de 75% de aprovação dos condóminos para instalar painéis e fazer Autoconsumo Coletivo em telhados é considerada bloqueadora.
- Autarquias temem riscos futuros de responsabilização por questões de contratação pública, travando iniciativas.
- Atrasos das empresas e Municípios (meses para respostas técnicas e autorizações) minam a confiança e a viabilidade dos projetos.
- Condicionamentos de rede e critérios de proximidade (2 km, por Posto de Transformação) criam paradoxos e podem levar à exclusão de membros à medida que a comunidade cresce.
- Modelos de uso de telhados públicos com critérios não económicos (como na Holanda e Bélgica) são apontados para mitigar barreiras, mas ainda pouco explorados em Portugal.
- Novos modelos tecnológicos e geográficos: comunidades, VNM e eólico urbano
Conclusão:
Para desbloquear o potencial renovável em áreas urbanas é necessário complementar o solar fotovoltaico com:
- Comunidades de energia e autoconsumo coletivo robustos e simplificados;
- Virtual network metering (VNM) para gerir excedentes temporalmente;
- Valorização de excedentes via tarifas apropriadas;
- Exploração de eólico em contexto urbano e portuário, apesar de barreiras culturais.
Pontos de Discussão:
- Comunidades de energia e modelos coletivos com valorização de excedentes são centrais para viabilizar renováveis em meio urbano.
- VNM é relevante para permitir injetar de dia e consumir à noite, apesar de questões de oportunidade.
- Eólico em áreas urbanas e portuárias é sugerido como opção, com exemplos de portos na Dinamarca, mas enfrenta resistências sociais e políticas (tema "tabu").
- Definições legais de comunidades de energia e desalinhamento com diretivas
europeias
- Complexidade Regulatória, Comunicação e Articulação Energia–Urbanismo
- Complexidade regulatória, compreensão e comunicação intersectorial
Conclusão:
A discussão sobre tarifas, modelos de autoconsumo, regulação e planeamento da rede é tecnicamente complexa e pouco acessível a urbanistas e outros profissionais não especializados. Esta complexidade compromete a articulação entre planeamento energético e urbano e leva a subaproveitamento do potencial das áreas artificializadas.
Pontos de Discussão:
- A conversa técnica foi qualificada como "críptica" para urbanistas, revelando falhas de tradução entre o mundo energético e o urbanístico.
- Há reconhecimento da necessidade de diferentes perfis especializados (económico/tarifário e tecnológico/regulatório) e de mediação entre esses mundos.
- Complexidade regulatória, compreensão e comunicação intersectorial
Grupo Focal LICENCIAMENTO ÁGIL e PREVISÍVEL
Coordenação: Dra. Isabel Moraes Cardoso e Professor Francisco Moreira
Objetivos e âmbito: os mecanismos regulatórios destinados a simplificar e acelerar os procedimentos de licenciamento elétrico, ambiental e urbanístico nas ZAER.
Especialistas: Ricardo Tomé, Maria do Carmo Figueira, Teresa Leonardo, Acácio Pires, Filipe Pinto, João Marques Mendes, Ana Luís de Sousa, Manuel Andrade Neves, Pedro Fernandes, Susana Serôdio, Júlio Jesus
Reuniões realizadas: 1
Principais pontos discutidos:
A discussão do focus group centrou-se na seguinte questão:
Quais os mecanismos a adotar que proporcionem/potenciem a simplificação e aceleração dos licenciamentos elétrico, ambiental e urbanístico dos projetos de produção de energia renovável – solar e eólica, em ZAER?
E, nesse âmbito:
- Quais os principais obstáculos que impedem a simplificação e aceleração dos procedimentos de licenciamento dos projetos de produção de energia renovável (centralizado e descentralizado);
- Quais as medidas a adotar para remoção dos obstáculos/entraves nos licenciamentos elétrico, ambiental e urbanístico dos projetos de produção de energia renovável (centralizado e descentralizado).
Procedeu-se à reflexão e discussão, de uma forma ampla, dos seguintes pontos:
- Identificação de Obstáculos ao Licenciamento ágil e previsível:
Foram identificados como principais obstáculos ao licenciamento de projetos renováveis, a complexidade legislativa, falta de articulação entre entidades, insuficiência de recursos técnicos e humanos, e desafios de aceitação social e territorial.
Especificamente:
- Complexidade Legislativa: Foi referido que a legislação se tem tornado cada vez mais complexa, com múltiplos regimes jurídicos e alterações sucessivas que, em vez de simplificar, dificultam a implementação dos projetos, criando insegurança e bloqueios administrativos.
- Falta de Articulação e Recursos: Os participantes apontaram a falta de articulação entre entidades centrais, regionais e locais, bem como a escassez de recursos técnicos e humanos, especialmente em câmaras municipais, como fatores que atrasam e complicam o licenciamento.
- Desafios Operacionais e de Rede: Foi destacado que o desenvolvimento insuficiente das redes elétricas e a existência de múltiplos licenciamentos parcelares, incluindo questões logísticas como licenças/autorizações para a passagem de infraestruturas e linhas, podem paralisar projetos de interesse público.
- Aceitação Social e Territorial: A oposição de Municípios e populações locais, bem como a necessidade de negociar contrapartidas sociais e ambientais, foram identificadas como obstáculos frequentes, exigindo maior envolvimento e comunicação com os Municípios e as comunidades.
- Falta de Digitalização: A ausência de plataformas digitais integradas e interoperáveis para submissão e acompanhamento de processos foi apontada como um entrave à transparência e eficiência do licenciamento.
- Medidas proposta para simplificação e aceleração do licenciamento:
Foram apresentadas como propostas para simplificar e acelerar o processo de licenciamento a criação de uma unidade de aceleração, reforço da digitalização, clarificação de regras, definição de matrizes de minimização e compensação ambiental.
- Unidade de Aceleração: Foi sugerida a criação de uma unidade física centralizada para gerir e agilizar os processos de licenciamento, reforçando a capacidade das entidades envolvidas e apoiando Municípios com menos recursos técnicos.
- Digitalização e Interoperabilidade: Os participantes defenderam a implementação de plataformas digitais integradas para submissão, acompanhamento e partilha de informação sobre projetos, facilitando a transparência e a comunicação entre entidades.
- Clarificação e Uniformização de Regras: Foi proposta a clarificação de zonas cinzentas na legislação e a uniformização de critérios de decisão, para evitar interpretações divergentes e acelerar a tramitação dos processos.
- Matrizes de Minimização e Compensação: Discutiu-se a necessidade de definir matrizes claras de medidas de minimização e compensação ambiental, adaptadas a cada tipo de projeto e contexto, e a importância de monitorização contínua para ajustar medidas conforme necessário.
Adicionalmente debateu-se acerca das ZAER:
- Vantagens, riscos e limitações das zonas de aceleração para energias
renováveis:
Foram abordados critérios de seleção, viabilidade técnica e económica, e potenciais desigualdades entre projetos dentro e fora destas zonas. A saber:
- Critérios de Seleção das Áreas: Foi debatido que os critérios para definição das zonas AE tendem a privilegiar fatores ambientais e territoriais, podendo não garantir a viabilidade técnica ou económica dos projetos, especialmente para energia eólica, que depende de dados específicos de vento.
- Riscos de Desigualdade: Os participantes alertaram para o risco de criar desigualdades entre projetos dentro e fora das zonas AE, sendo provável que muitos projetos continuem a ser desenvolvidos fora destas áreas, o que pode gerar obstáculos adicionais e concorrência desleal.
- Contratação de Terrenos: Foi sublinhada a complexidade da contratação de terrenos, frequentemente desconsiderada pelas entidades licenciadoras, e que pode obrigar a alterações de layout dos projetos, dificultando a sua execução.
- Impacto nas Comunidades e Municípios: Discutiu-se o papel dos Municípios, que podem restringir projetos renováveis a zonas específicas, excluindo áreas agrícolas ou naturais, e a necessidade de mecanismos de compensação social e económica para as comunidades afetadas.
- Monitorização e Informação: Foi sugerida a centralização e partilha de dados de monitorização ambiental, atualmente dispersos entre promotores e entidades, para apoiar decisões mais informadas e reduzir incertezas.
No âmbito dos trabalhos do focus group foram, ainda, debatidas:
- Questões Técnicas e Ambientais relacionadas com a Avaliação de Impacte Ambiental
(AIA):
Foram discutidas questões técnicas relacionadas com a monitorização, compensação e minimização de impactes com destaque da necessidade e importância de informação detalhada e de processos adaptada à realidade dos projetos. Especificamente:
- Monitorização Ambiental: Foi debatida a necessidade de monitorização contínua, tanto prévia como pós-implementação, para identificar impactos não previstos e ajustar medidas de mitigação ou compensação, com destaque para a partilha de dados entre promotores e entidades concluindo que a monitorização prévia não deveria ser um requisito, considerando o objetivo principal de aceleração. Foi enfatizada a importância da monitorização pós-implementação para, conforme a RED III, poderem tomar-se medidas suplementares caso fosse detetado algum impacto não esperado. Deu-se também nota da possibilidade de realização de um "screening" e/ou, embora distinto do screening, uma AInCa uma vez que esta pode ser usada em zonas fora da Rede Natura. A ausência de AIA nas ZAER poderá ser encarada com preocupação principalmente pela necessidade de preservação de valores naturais relevantes fora da Rede Natura.
- Minimização vs. Compensação: Os participantes defenderam que a prioridade deve ser dada a medidas de minimização dos impactos ambientais, recorrendo à compensação apenas quando estritamente necessário, e que as matrizes de medidas devem ser claras e adaptáveis. As compensações podem não ser apenas económicas e incluir monitorização. Referiu-se também o melhoramento de pastagens como eventual medida de compensação.
- Desafios de Informação: Foi identificada a falta de informação detalhada e centralizada sobre valores naturais e habitats, dificultando a avaliação de impactos e a definição de medidas adequadas, sendo sugerida a criação de bases de dados georreferenciadas. Só havendo um cadastro dos valores naturais é possível reduzir a incerteza. Foi notada a enorme quantidade de dados de monitorização que já existem mas que não estão centralizados nem prontos a utilizar para apoiar as AIA.
- Particularidades das Áreas Artificializadas: Discutiu-se que, nas áreas artificializadas, o principal obstáculo é a falta de capacidade técnica e de meios para licenciamento, e que processos simplificados podem ser aplicados a projetos de menor dimensão.
- Seleção de ZAER: as regras relativas à biodiversidade têm de ser muito precaucionárias devido às dinâmicas próprias da biodiversidade e devem ser distintas para solar e para eólica. Considera que as medidas de minimização devem ser o mais concretas possíveis (guião/checklist à qual os projetos têm de obedecer). Os eventuais mecanismos de compensação devem ser no local/região do projeto. Referiu-se o direito europeu sobre conservação de algumas espécies que inibe as entidades. Foi também notada a existência de legislação específica para o sobreiro e azinheira que deve ser tida em conta. Mais se notou a necessidade de se evitar a institucionalização de critérios que depois possam ser usados para bloquear outros projetos; que os projetos que estão isentos de AIA têm, atualmente, que pedir pareceres a inúmeras entidades, o que, na prática, complexifica o processo e adia a execução propriamente dita; as dificuldades ao nível dos licenciamentos dos projetos de Repowering, cujos impactos não podem ser avaliados com base na monitorização, uma vez que a substituição das turbinas acarreta impactos diversos.
- Planeamento, Comunicação e Envolvimento das Partes Interessadas: enfatizaram a necessidade de um planeamento estratégico, comunicação clara e envolvimento de todas as partes interessadas, incluindo promotores, Municípios e comunidades, para garantir o sucesso do licenciamento ágil e previsível e a aceitação social dos projetos.
- Planeamento Estratégico: Foi sublinhada a importância de um planeamento setorial robusto, com definição clara de áreas potenciais para renováveis, evitando ambiguidades e assegurando a compatibilidade com metas nacionais e europeias.
- Comunicação e Transparência: Os participantes destacaram a necessidade de melhorar a comunicação pública sobre o que são as zonas de aceleração, evitando mal-entendidos e promovendo a aceitação social dos projetos.
- Envolvimento dos Municípios e Comunidades: Foi defendido o envolvimento ativo dos Municípios e das comunidades locais no processo de planeamento e licenciamento, garantindo que as suas preocupações e interesses sejam considerados e que beneficiem dos projetos.
- Mudança de Paradigma: apelou-se a uma mudança radical de práticas, incentivando os participantes a pensar em soluções inovadoras e a contribuir para um novo modelo de licenciamento que seja verdadeiramente ágil, previsível e eficaz.
Grupo Focal SISTEMA ELÉTRICO NACIONAL
Coordenação: Professor Pedro Carvalho
Objetivos e âmbito: os principais desafios da integração dos projetos de energia solar e eólica no sistema elétrico, com especial atenção aos impactos na rede, com o intuito de identificar estratégias para a definição das zonas de aceleração que permitam mitigar os efeitos das limitações das redes no curto-prazo.
Especialistas: Rui Bento, Patrícia Fortes, Ana Estanqueiro, Hugo Costa, Rita Mota, Rui Oliveira
Reuniões realizadas: 1
Principais pontos discutidos:
O Focus Group identificou que o principal obstáculo à concretização das metas do PNEC 2030 não é a falta de recursos renováveis, mas sim as limitações estruturais, regulatórias e operacionais do Sistema Elétrico Nacional (SEN). Sem ajustes rápidos, existe um risco elevado de as metas se manterem no plano estratégico, sem tradução em capacidade instalada efetiva.
- Rede elétrica como gargalo crítico
O acesso à rede, sobretudo à rede de transporte, é a barreira dominante à expansão das renováveis. A existência de cerca de 14.000 MVA de capacidade comprometida e não utilizada, aliada a regras rígidas de reforços e repartição de custos, gera incerteza, bloqueia projetos maduros e penaliza de forma desproporcionada os projetos de menor escala.
A atribuição de ligações com restrições seria benéfica, mas o risco não pode ficar no operador de rede (o risco da parcela de consumo que dá suporte à capacidade de injeção desaparecer, reduzindo, nesses momentos, a capacidade de injeção).
- 2. Desalinhamento entre planeamento, metas e economia
As metas do PNEC não estão suficientemente alinhadas com:
- a capacidade real da rede,
- o planeamento do RMSA,
- a viabilidade económica dos projetos.
Algumas metas (solar e offshore) são vistas como excessivamente otimistas, enquanto PPAs muito baixos comprometem a execução efetiva da capacidade atribuída.
- Zonas de aceleração: oportunidade com riscos
As zonas de aceleração podem reduzir prazos de licenciamento, mas não devem ser interpretadas como zonas exclusivas. Para serem eficazes, devem:
- partir da rede existente e planeada,
- integrar parques eólicos existentes (repotenciação, sobreequipamento, hibridização),
- aproximar produção da procura (zonas industriais e autoconsumo).
Caso contrário, correm o risco de ser pouco relevantes para as metas até 2030.
- 4. Modelo ineficiente de atribuição de capacidade
O modelo atual ("first come, first served") gera concentrações inviáveis, filas bloqueadas e especulação. Defende-se:
- atribuição de capacidade por zonas com limites claros,
- milestones obrigatórios,
- regras eficazes de caducidade e libertação de capacidade.
- Licenciamento ambiental como fator temporal crítico
O licenciamento ambiental é um dos principais entraves, com processos que podem ultrapassar 4 anos. As zonas de aceleração podem ajudar, mas o impacto até 2030 depende do calendário e da integração de projetos já em desenvolvimento. Repotenciação e hibridização deveriam ter prioridade.
- Subaproveitamento da rede existente
Existe capacidade física bloqueada por critérios conservadores e "entendimentos de papel". Foram identificados "quick wins" até 2030:
- Dynamic Line Rating,
- flexibilização transitória do critério N-1,
- uso de transformadores de reserva,
- revisão da interface transporte–distribuição.
- Repotenciação, hibridização, armazenamento e bombagem
A repotenciação eólica, as centrais híbridas e o armazenamento são soluções custo-eficazes para aumentar renováveis sem grandes reforços de rede. Contudo, persistem barreiras regulatórias, contratuais e de remuneração da flexibilidade. A bombagem hidroelétrica é reconhecida como essencial, mas está bloqueada por interpretações ambientais e enquadramentos legais desajustados.
- Autoconsumo, agregadores e digitalização
O autoconsumo e a proximidade entre produção e consumo são vistos como grandes aceleradores. Falta um regime claro de associação dinâmica injeção–consumo. Agregadores, centrais virtuais e maior digitalização da rede são cruciais para libertar capacidade e otimizar o SEN, mas o enquadramento regulatório ainda é insuficiente.